
por Inês Cozzo Olivares
Você já percebeu o estrago que uma simples palavrinha pode fazer? Uma palavrinha de nada... três letrinhas... que podem deixar a gente muito feliz ou arrasado. Já notou? Pois é. Acontece. Não sei se você tem consciência de que é essa palavrinha que estraga tudo ou anestesia dores, mas o fato é que a Neuropsicologia já provou isso, sabe? Com tudo quanto é equipamento que precise pra dizer que tá provado, aliás. Então pensei "Por que não fazer uma crônica sobre isso?" O "troço" é um bocado técnico. Vamos ver no que é que dá... Quem sabe eu não invento, como me sugeriram, as Neurocrônicas. Tomara.
Veja se você consegue ver o desenho da boca se formando quando você diz à alguém:
- É possível, mas é difícil.
E se consegue ver o desenho exatamente oposto quando diz:
- É difícil, mas é possível.
Consegue? Eu consigo. Aliás, eu já vi muuuito isso acontecer. Isso já aconteceu comigo! De dentro pra fora. E as palavras são EXATAMENTE as mesmas! Todas as cinco!
Eu tava assistindo ao seriado Friends -- pela milésima vez, claro, porque ele é muito genial pra ser visto uma vez só -- quando me deparei com essas duas cenas.
Só pra contextualizar, Friends é uma sitcom (abreviatura em inglês para "comédia de situações") com 6 amigos, 3 homens e 3 mulheres, de personalidades bem diferentes e suas situações cotidianas hilárias ou emocionantes, mais hilárias que emocionantes, diga-se de passagem.
O episódio em questão é aquele em que a Rachel (Jennifer Aniston) está morrendo de amores por um cliente chamado Joshua e consegue arrastá-lo pro apartamento dela com a desculpa de uma festinha de bota-fora pra namorada do Ross (David Schwimmer). Depois de uma cena hilária onde ela "paga um mico federal" vestida de Cheerleader -- animadora de torcida -- by the way, neste link você verá meu sobrinho Andrey "zoando" no Powder Puff Cheer Juniors nos EUA onde foi cursar a High School. Achei que seria mais divertido assistir a um monte de moleques "tirando onda" de menina do que às próprias. Os homens que me perdoem se queriam ver "filezinhos", como se diz em Fortaleza, segundo minha cliente e amiga Beth da J. Macêdo! Imaginem... filezinhos... Melhor nem comentar.
Retomando, no seriado, eles, Rachel e Joshua, vão pro quarto dela conversar e ela confessa que está muito interessada nele e ele admite que está muito a fim dela também, mas... e ela imediatamente o interrompe e diz: "Oh! Não! Sem mas..." com carinha de "cachorro pidão", sabe como? Aí ele diz "Tá bom... sem mas." E prossegue dizendo: "No entanto" ao que ela interrompe outra vez, já bem desanimada e diz "Isso é só um 'mas...' de luxo". Aí ele vai explicar pra ela que tá saindo de um relacionamento agora e que talvez esse não seja o melhor momento pros dois, e blá, blá, bla porque ela não tá ouvindo mais nada, claro. Só sofrendo.
Pois é, você já ouviu falar em Marilyn Ferguson? Ela é a autora de um best-seller chamado A conspiração aquariana, que marcou época e é mesmo fabuloso! Ela também criou um boletim na década de 70 chamado "Brain/Mind Bulletin" e esse boletim trazia uma série de informações sobre pesquisas de ponta da época, popularizando as idéias de neurocientistas como Karl Pribram e Candace Pert, físicos como Fritjof Capra e David Bohm, psicólogos como Jean Houston entre outros.
Num desses boletins, ela publicou uma experiência genial que mostrava como a palavras "mas" e todos os seus sinônimos (porém, contudo, entretanto, todavia, no entanto...) agia sobre nosso cérebro/mente.
Por ser uma conjunção adversativa, sua função é justamente opor as duas partes de uma sentença. Ora, o que se opõe, se não "apaga" o que veio antes, no mínimo, reduz a potência.
Imagina a cena:
Ela: Tô bem assim?
Ele: Tá ótima, mas tem que ser esse sapato mesmo?
Ela: Mas o quê? O que é que tem meu sapato? (já decepcionadíssima porque, convenhamos, ótima uma ova, tem um "mas" aí)
Ele: Antes do fim da festa você vai ficar me infernizando pra voltar, que não aguenta mais, que isso e que aquilo, e seu sapato tá te matando...
Ela: Mas eu não vou mesmo! Eu não faço essas coisas! (a gente nunca tem consciência que faz essas coisas. Aliás, vocês se surpreenderiam como a consciência da gente é seletiva...)
Ele: Ah! mas vai MESMO que eu sei. Já vi esse filme...
E, de mas em mas, a guerra tá armada. Aliás, pra que tanto "mas" afinal? O que aconteceu com a conjunção aditiva? Lembram do E? Tão bonitinho ele. Sabia que o outro nome da conjunção aditiva é copulativa? Sério! Duvido que se alguém te explicasse na escola o que é copular, você ia esquecer essa conjunção, mas duvido mesmo! Nessa idade os hormônios estão simplesmente explodindo! E duvido que você não a preferisse ao 'mas'. Duvido!
Na prática, imaginem isso:
Ele: Tá ótima! E ficava melhor ainda com aquele sapato baixinho, super elegante, de ontem.
Quem discute com um ótimo somado à outro? Lembra? E? Conjunção aditiva? Adicionar = somar? Isso MAIS aquilo? Aliás, por que cargas d'água, nas aulas de português, não nos mostram as vantagens de falar ou escrever bem NA VIDA? Não pra prova; pra vida! Diz pra mim que entendendo a diferença entre as conjunções (palavras de ligação entre frases numa mesma sentença) eu vou conseguir ser mais feliz na vida e eu juro que aprendo! Mas me conta o efeito de cada uma, sacou? Por que é aí que mora o perigo! Mas é aí também que está a chave do sucesso em termos de comunicação: Em saber os efeitos que as construções semânticas causam na gente. Porque causam. E como causam.
O negócio é que essa pesquisa publicada pelo Brain/Mind Bulletin mostra que sujeitos em conversação livre, apresentam um tamanho de onda no EEG (eletroencefalograma) maior após o 'mas'. Por exemplo, na sentença:
Sujeito A: - Concorda?
Sujeito B: - Eu concordo, mas to achando melhor rever.
O sujeito A, apresenta um cumprimento de onda muito maior após o mas do que apresentava antes, isto é, ele está processando praticamente só a segunda parte da sentença! Neste caso, o "acho melhor rever"! A primeira -- concordo -- apagou-se da mente ou perdeu força, logo não adianta nada tentar amenizar com uma concordância primeiro. Dããã...
Coisas como:
- Você é um ótimo funcionário, mas...
- Você é um super amigo, mas...
- Eu te ajudo, mas...
Esquece! Esquece o ótimo, o super, o ajudo. Esquece tudo! Deu em nada!
Lembra que eu disse no início que eram duas cenas no mesmo episódio de Friends? Então, na segunda, a Rachel tá sentada na escada da entrada do apartamento, curtindo uma dor de cotovelo básica, quando vê o Joshua, voltando. Ele se aproxima dela e diz:
- Fiquei pensando muito sobre nós e, bem, ainda é verdade que estou recém saindo de um relacionamento e meio machucado, mas...
Ao que ela, imediatamente o interrompe e diz:
- Ah! Aí está! Desse 'mas' sim eu gosto!
Eles riem e, claro, dão um beijo daqueles de estimular cachoeiras de endorfina na corrente sanguínea.
É simples assim, basta inverter a ordem das coisas, por exemplo:
- Você tem se atrasado ultimamente, mas é um ótimo funcionário de modo geral. O que tá acontecendo?
- Você me deixou falando sozinho ontem, mas é um super amigo. Não entendi. O que aconteceu?
- Eu não tenho a parte da manhã, mas te ajudo à tarde ou à noite.
E por aí vai...
Eu, por exemplo, adoraria continuar escrevendo, mas preciso parar agora porque postar aquele video do beijo no YouTube mexeu com toda minha produção de neurotransmissores... (neurocientistas são maus... muito maus... mas podem ser bem instrutivos e divertidos também quando querem...).
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